Hoje fazes 40 dias. É um bom momento para te contar acerca do maior deles todos.
Dormimos razoavelmente bem na última noite antes do dia previsto para o teu nascimento. Ao nos deitarmos, a mamã não evitou comentar que esta seria a última noite que estaríamos ali os dois, ainda sem ti. Era a última noite (provavelmente) que a mamã passaria contigo dentro da barriga. Se calhar por isso, demorámos um pouco mais a adormecer. Mas logo cedemos à hora e dormimos até sermos despertados pela manhã.
Preparámo-nos como normalmente fizemos de cada vez que fomos ao hospital, com uma simples e importante diferença: carregamos três sacos cheios das tuas roupinhas e outros utensílios, bem como as coisas da mamã. Certifiquei-me que o telemóvel estava pronto, configurado para enviar e-mails e com bateria totalmente carregada. A mamã verificou que nada faltava e partimos. Olhamos para a porta e tivemos a certeza que da próxima vez que por ali passássemos os três juntos, tu já estarias nos nossos braços.
Fizemos tranquilamente a curta viagem de 15 minutos até ao hospital. Como de costume, deixei a mamã junto da porta e fui estacionar o carro. Quando cheguei de novo junto da mamã, ela já tinha feito a sua inscrição e estava à espera de ser chamada. Isso demorou uns 10 minutos, talvez nem tanto. A mamã entrou e eu fiquei na sala, junto aos sacos que ali já estavam. Enviei para este blogue o primeiro e-mail de actualização de dados, o que repeti frequentemente ao longo do dia.
Enquanto esperava, apareceu uma amiga nossa com quem estive a falar durante algum tempo. Estava lá para uma consulta e ficamos um pouco na conversa até que chegou a mamã. Disse que esteve a ser observada e, tal e qual nas últimas semanas, a dilatação mantinha-se exactamente na mesma. Ela seria, como previsto, internada naquele mesmo instante; se se mantivesse na mesma, logo iriam induzir o parto.
A mamã entrou para o internamento e eu tive de ficar do lado de fora. Eram cerca de 10:00h, e só pelas 12:30h eu poderia aceder à sala onde ela ficaria.
Aproveitei para caminhar um pouco pelas ruas circundantes do hospital. Não o melhor dos cenários, devido ao ruído e poluição, mas serviu para eu sair do ambiente sobrecarregado daquela sala de espera quase sobrelotada onde até ali tinha estado. Não esperava era que começasse a chover; mas até isso serviu de prenúncio para a chuva de bênçãos que naquele dia iríamos receber…
Por volta das 12:00h, encontrei um sítio onde poderia almoçar. Tentei estar pronto para à hora autorizada subir para junto da mamã, e assim foi.
Ela estava já na cama de internamento, onde lhe tinha sido administrada a indução do parto. Como nesse dia completavas exactamente 41 semanas de gestação e o parto não surgiu naturalmente, foi induzido pelos médicos com recurso a duas substâncias, disseram-me, administradas para o efeito: oxitocina e prostagladinas. Agora iríamos esperar para ver o desenvolvimento.
Liguei o computador ali no quarto que a mamã estava a partilhar com outras duas senhoras. Assim, a mamã podia entreter-se enquanto esperava que a indução fizesse efeito. Actualizamos o blogue (por isso podes acompanhar o relato deste dia com as mensagens que no momento fui enviando) e verificamos que muitos amigos já estavam ligados online e a enviarem as suas mensagens de apoio.
Durante a tarde, por três vezes a mamã foi colocada na máquina que faz o CTG, mais conhecido como traçados. Da primeira vez, não foram detectadas grandes contracções e esperamos mais algum tempo.
Da segunda vez, estava naquela ala uma simpática enfermeira que a mamã conheceu nas aulas de preparação para o parto. Ela ligou a mamã à máquina e voltou passado algum tempo para verificar que desta vez sim; já eram acusadas contracções significativas! O momento estava cada vez mais perto.
A mamã foi desligada desse aparelho e aconselhada a caminhar no corredor. Felizmente, e nada acontece por acaso, tudo isto aconteceu durante a tarde, e por isso eu pude estar ali o tempo todo. Fomos para o corredor e a mamã andou para trás e para a frente, cada vez com mais dificuldade e… fortes dores das contracções, cada vez mais frequentes! Não havia dúvida que a indução estava a surtir total efeito.
Várias vezes teve de sentar-se devido às dores; mas tudo isso era o processo normal para a realização do parto. Assistindo a tudo, garanto-te que se pudesse tinha passado algumas dores para mim; mas não era assim que deveria ser…
Passado algum tempo, voltámos ao quarto e a mamã pediu para chamar uma enfermeira. Veio uma senhora que me pareceu bastante experiente e garantiu à mamã que aquelas dores... ainda não eram nada. Pediu à mamã que se deitasse e examinou-a. Comprovou-se que a dilatação estava de facto a aumentar positivamente; por isso, foi decidido que a mamã passaria para o bloco de partos.
Tranquilamente, mas creio que não disfarçando alguma ansiedade para os presentes, preparei as coisas todas da mamã, que logo duas auxiliares estavam prontas para levar com a mamã. Foi-me indicado que deveria aguardar do lado de fora do bloco até que fosse chamado, caso fosse possível assistir ao parto.
Ali estive, creio que cerca de duas horas. A mamã do lado de dentro, teve de tomar banho para tentar relaxar um pouco. Acho que não conseguiu. Depois passou para uma das salas do bloco, onde foi deitada para ser ligada aos aparelhos de monitorização – para ela e para ti. Também ali lhe foi administrada a epidural. Se a mamã quiser, ela depois pode falar-te melhor sobre esta parte onde eu não estive.
Do lado de fora, eu enviei mais alguns e-mails para o blogue e peguei num dos livros que tinha levado. Escolhi o ‘No Deserto da Tentação’, de Ellen White. Ao mesmo tempo, deitei mão das frutas e dos sumos que tinha no saco (já me tinha precavido antes de sair de casa pela manhã) e alimentei-me conforme pude – isto porque, não sairia dali por nada deste mundo.
A este propósito, lembro uma simpática auxiliar que por mim passou e sugeriu que eu fosse jantar, pois o parto poderia ainda demorar algum tempo. Quando lhe disse que tinha comida comigo, ela perguntou ‘e você vai ficar aqui o tempo todo?’ (isto, na hipótese de tu ainda demorares muito a nascer). Eu simplesmente lhe respondi: ‘olhe, minha senhora, estou há quase quatro anos à espera deste momento; acha mesmo que eu iria arriscar sair daqui agora?’ Ela aceitou sem reservas a minha posição…
Creio que li umas 40 páginas do livro quando fui chamado para entrar no bloco, por uma outra enfermeira que tinha apresentado as aulas de preparação à mamã – vamos chamar-lhe de ‘enfermeira loirinha’. Lembro-me de naquele instante ter pensado ‘vai ser agora!’, mas ter mantido a calma e serenidade com que sempre estive durante o dia. Mas, a expectativa sem dúvida que era maior neste momento.
Vesti o fato próprio e entrei para junto da mamã, que estava deitada na marquesa, com aspecto de já ter passado por um bom bocado… Ela contou-me o que já tinha feito e que nesta fase em que as contracções aumentavam ainda mais, esperávamos que a dilatação fosse o suficiente para tu saíres, na esperança que a epidural fizesse suficientemente efeito para custar menos à mamã.
Enquanto esperávamos, notei que a Providência tinha agido para que a mamã fosse a única senhora em trabalho de parto naquela hora; além de facilitar a minha presença ali, todas as profissionais estavam atentas à mamã.
Mantivemos calma conversa com uma parteira que ali trabalhava há 32 anos. Contei-lhe que eu próprio tinha nascido naquele hospital numa segunda-feira à noite, tal e qual nesta ocasião. Ela contou um pouco da sua história e ‘desanuviamos’ um pouco o ambiente para a mamã.
Esta mesma parteira veio examinar a mamã. Colocou a mão e verificou que a mamã tinha seis dedos de dilatação; mais um pouquinho e estava ‘no ponto’ para efectuar o parto.
Não demorou muito tempo a que, discretamente, sem causar muito alarido, tocassem novamente a mamã. Desta vez, não disseram nada. Mas eu reparei que logo de seguida, a enfermeira loirinha e a outra senhora parteira começaram a juntar numa mesa-carrinho alguns utensílios e uma bata própria. Pensei para mim próprio: ‘agora sim, é o momento!’. De facto, era; já havia oito dedos de dilatação.
Logo, estavam as duas em volta da mamã. Pediram que ela se colocasse numa outra posição, mais favorável à tua saída. Fizeram-lhe recordar os exercícios de respiração que tinha aprendido, pois iriam ser bem precisos de seguida. Em frente à mamã, a enfermeira loirinha controlava a dilatação, e vislumbrou pela primeira vez o topo da tua cabecinha, mas ainda muito dentro. Então, disse à mamã para começar a, calmamente, fazer os exercícios tal qual tinha aprendido.
Tenho desde já a dizer-te que a mamã portou-se muito bem nesta parte. É certo que por vezes distraía-se e ficava desconcentrada; mas logo recuperava e fazia tudo direitinho.
À ordem da enfermeira loirinha, a mamã foi respirando o melhor possível e fazendo a força necessária para te empurrar para fora. Eu não te consigo explicar detalhadamente como é este processo. Deus entendeu por bem conceder às mulheres este elevado privilégio e só elas podem experimentar para contar. Seja como for, percebi que tu já estavas a esticar-te para saíres e que agora uma parte principal deveria ser desempenhada pela mamã.
Com intervalos de poucos segundos, a mamã ia fazendo cada vez mais força, conforme tinha aprendido, para que a tua cabecinha saísse, e, logo de seguida, o corpinho todo. Pelo que as parteiras iam comentando, soube que a cada tentativa, a tua cabecinha saía mais um bocadinho.
Nesta fase, percebi claramente que a cada segundo tu poderias estar cá fora, poderíamos ver-te e até ouvir-te! Num dos momentos de breve descanso da mamã, não resisti; discretamente, perguntei à enfermeira se poderia ver de frente tu a saíres. Ela, sabiamente, respondeu que não tinha perguntado à mamã se ela se importava com isso, e que talvez seria melhor que não. Eu entendi perfeitamente. Por isso, mal ela retomou o trabalho… eu coloquei-me em bicos de pés e espreitei por cima dos panos que cobriam a mamã. E ali, vi um bocadinho do teu cabelinho escuro já fora da mamã. Foi o primeiro momento em que senti, ligeiramente, as pernas a tremerem…
Mas, após mais duas tentativas de fazer força, a enfermeira loirinha viu que tu já não estavas a sair mais e decidiu, olhando para a outra parteira, cortar um pouco a mamã. Vi-a pegar na tesoura e fazer o movimento de um ligeiro corte.
Recordo que aqui elevei o meu pensamento até ao lugar onde habita o Autor da vida e onde tudo é perfeito. Em meio às dificuldades humanas (neste caso, não tão grandes quanto isso…), Deus assegurou-me mentalmente que naquela sala estavam os Seus enviados para nos protegerem. Eles seriam os ajudadores da mão e mente humanas que estavam a fazer-te o parto. Tranquilo, voltei de novo a minha atenção para o privilegiado espectáculo.
Novamente, a enfermeira pediu à mamã que tentasse expulsar-te com toda a força que tivesse. Assim foi; logo que a mamã fez o papel dela, tu deslizaste um pouco mais para fora!
Nisto, vejo que a parteira que estava a assistir, voltou-se para trás e pegou num pequeno escadote que estava ali ao lado. Subiu nele, voltou-se para a mamã e disse-lhe: ‘vai ser agora, faça toda a força que tiver!’. Colocou os braços em cima da barriga da mamã e gritou: ‘agora!!!’.
A mamã fez força uma vez e tu cedeste mais. Quando forçou a segunda vez, ouvi a enfermeira loirinha dizer as mais belas palavras que algum desconhecido nosso já proferiu: ‘aí vem ele, aí vem ele!’.
Julgo que o meu cérebro terá parado naquele instante. Todas as células e processos do meu organismo estavam a funcionar apenas e só para alimentar a minha visão. Não consegui pensar, sentir… nada, absolutamente nada, a não ser olhar para tentar confirmar que a oferta da vida que há tanto aguardávamos, finalmente se tinha concretizado.
À voz da enfermeira 'olha a sair tão bem!', espreito por cima dos panos que cobriam as pernas da mamã, e vejo um milagre divino feito de carne e osso. Pela posição em que te pegaram, foram os teus testículos a primeira parte do teu corpinho que vi (penso que foi esta a maneira de Deus me presentear por eu ter desejado um rapaz), uns míseros dois segundos após teres nascido. Logo, olhei mais e vi as tuas perninhas dobradas, as tuas costinhas frágeis que a enfermeira colocou suavemente na mesa que a acompanhava, a tua cabecinha ainda com uma forma estranha, o teu imenso cabelinho, a tua pequena boquinha e o narizito... Não havia engano possível: eras tu que tinhas nascido!
Olhei permanentemente para ti, tentando cobrir-te o máximo possível com o meu embargado olhar. Estava ali o nosso bebé! Deus tinha, mais uma vez, favorecido um miserável mortal com a bênção maior que nesta terra podemos ter: um filho, descendência minha, carne da minha carne, ossos dos meus ossos, sangue do meu sangue.
Olhei para a mamã e disse-lhe: ‘já está, paixão… já estou a vê-lo!’ Ela estava deitada, começando a recuperar do enorme esforço. Acho que por um momento, ela perdeu a noção do que tinha acabado de acontecer. Era tudo tão forte, tudo tão novo, tudo tão sublime, que a nossa capacidade de encaixe tinha sido facilmente ultrapassada, reconheço.
A mamã conseguiu ter forças para falar e disse à enfermeira: ‘ele não está a chorar!’, ao que a enfermeira respondeu: ‘calma, ainda não passou um minuto!’. Assim que ela termina esta frase, um ruído doce e meigo como nunca ouvimos antes foi projectado pela sala: eras tu a chorares pela primeira vez, a fazeres o primeiro som da tua vida! Vi-te e ouvi-te nessa melodia tão bela, dirigida pelos anjos que ali ao lado estavam, ainda que eu não os tenha visto. Choraste com força, como um verdadeiro homem do Norte!
Entretanto, a enfermeira loirinha que estava a tratar de ti e da mamã, continuou o serviço de parto, e perguntou-me: ‘papá, quer cortar o cordão umbilical?’ Eu ouvi a pergunta, mas creio que nem consegui desenvolver qualquer raciocínio para responder; penso que terei dito ’pode cortar…’ ou qualquer coisa parecida.
A enfermeira loirinha, coloca então perante mim o teu cordão umbilical, ainda ligado à mamã e diz-me: ‘vá, corte aqui.’ Peguei numa tesoura que ali estava e firmemente cortei a ligação física que por 41 semanas te uniu à mamã.
Em poucos segundos, tu és levantado, embrulhado nos panos por sobre a mesa, e a parteira auxiliar mostra-te à mamã, que te dá um simples beijinho. Assim, foi a mamã quem te tocou primeiro, não eu. Foste então levado para uma sala ao lado, para continuarem a tratar de ti.
Apercebendo-se do meu estado de elevadíssima excitação, a enfermeira aconselhou-me a sentar por um pouco. Ao fazê-lo, lembrei-me daqueles que durante o dia nos seguiram e que há 45 minutos não tinham notícias nossas. Peguei no telemóvel e escrevi simplesmente: ‘NASCEU! Tudo bem!’ Enviei para o teu blogue, a fim de que o mundo soubesse que tu eras a última prova que existe um Deus Criador que tem o dom da vida bem seguro na Sua mão.
Fiquei ali um pouco a falar com a mamã. O telemóvel começou de imediato a vibrar, chamadas e mensagens, mas nem uma única vez peguei nele para ver quem era. Comentamos juntos, principalmente eu, conforme fomos capazes de julgar, aquilo que tinha acabado de acontecer. Ainda era tudo demasiado fresco, demasiado surpreendente para que disséssemos algo concreto. Mas sentimos que algo de novo, muito especial, tinha começado naquela sala.
Alguns minutos depois, a parteira auxiliar trouxe-te até nós. Foste-me entregue nos braços e pegando-te, só te larguei quando saí de lá.
Estavas com os olhinhos bem abertos, voltando-se para tudo à volta. Se para nós aquilo era novidade, imagino o que terá sido para ti! Andei contigo de um lado para o outro, mostrei-te à mamã (que estava exausta), tirámos algumas fotografias com a mamã e… ficamos ali a olhar para ti.
Logo fomos para uma outra sala, fora do bloco de partos. Ali, fizemos os três a nossa primeira oração em família. Agradecemos ao Deus Eterno pela bênção enorme, de valor incalculável, que nos tinha dado, e pela primeira vez contigo, Lhe pedimos que cuidasse de Ti.
Com a ajuda de uma auxiliar, pela primeira vez tomaste da mama. Claro que não o fizeste muito bem; mas foi a primeira vez que a mamã te amamentou. E eu estava lá para ver. No total, pude ficar contigo durante duas horas neste dia.
Passado pouco tempo, a mamã foi levada para a enfermaria, e eu tive de vir embora. No caminho de regresso, ainda estava a recuperar das grandes emoções. Em casa, revi as mensagens de simpatia e carinho que de várias partes do mundo nos tinham enviado. Finalmente, deitei-me para dormir. E consegui fazê-lo.
Estes foram os momentos mais importantes. Alguns outros pormenores e sentimentos únicos ficam para te contarmos pessoalmente quando cresceres.
Foi assim o dia do teu nascimento.